Publicação Contínua
Qualis Capes Quadriênio 2017-2020 - B1 em medicina I, II e III, saúde coletiva
Versão on-line ISSN: 1806-9804
Versão impressa ISSN: 1519-3829

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EDITORIAL


Acesso aberto Revisado por pares
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Revisão por pares: rigor, responsabilidade e formação científica

Melania Maria Ramos Amorim1; Lygia Carmen de Moraes Vanderlei2,3; Eduardo Jorge da Fonseca Lima3; Alex Sandro Rolland Souza3,4,5

DOI: 10.1590/1806-93042026editor01 editor01

A revisão por pares ocupa posição central na ciência contemporânea, embora raramente receba atenção proporcional à sua relevância prática. Não se trata de um mecanismo elegante nem infalível, mas de um processo essencialmente humano, permeado por vieses, inconsistências e erros de julgamento. Ainda assim, permanece como o principal instrumento disponível para exercer algum grau de filtragem sobre a evidência científica que circula na literatura biomédica.1,2

Na ausência de revisão qualificada, falhas metodológicas passam a ostentar aparência de validade, inferências frágeis convertem-se em conclusões assertivas, e decisões clínicas ou de políticas públicas acabam apoiadas em achados que não resistiriam a exame técnico rigoroso, produzindo efeitos concretos sobre práticas assistenciais, formulação de diretrizes e alocação de recursos, com potenciais repercussões adversas para indivíduos e sistemas de saúde.1,2

A literatura empírica demonstra que a revisão por pares não garante a verdade científica nem elimina vieses, mas contribui de modo consistente para a identificação de erros grosseiros, o aprimoramento do relato e a detecção de falhas metodológicas antes da publicação.1,2 Evidências oriundas de ensaios metodológicos e revisões sistemáticas indicam que a participação de revisores treinados ou com expertise estatística se associa a melhorias mensuráveis na qualidade final dos manuscritos, sobretudo no relato de métodos e resultados.3,4

Nesse contexto, o papel do revisor exige delimitação precisa. Revisar não é julgar intenções, tampouco aferir mérito moral ou esforço individual dos autores. O parecer deve concentrar-se no trabalho apresentado: na formulação da pergunta de pesquisa, na adequação do desenho do estudo, na coerência entre métodos e análise, na consistência dos resultados e na proporcionalidade das conclusões aos dados disponíveis.1,2,5 Quando esses elementos falham, a crítica deve ser direta, tecnicamente fundamentada e inteligível para a editoria. Rigor científico não requer agressividade nem personalização do julgamento; exige método, domínio conceitual e consistência argumentativa.1,5

A experiência editorial acumulada sugere que pareceres excessivamente duros na forma, ainda que corretos no conteúdo, raramente produzem ganhos científicos concretos. Com frequência, provocam respostas defensivas, prolongam o processo editorial e dificultam correções substantivas.2,5 Isso não implica evitar recomendações de rejeição quando estas se impõem. A rejeição integra legitimamente o processo editorial. Ainda assim, mesmo um parecer que culmina em rejeição pode cumprir função informativa relevante, ao explicitar de modo objetivo por que o estudo não atende aos critérios científicos ou editoriais do periódico.1,2

Para além de sua função no fluxo editorial, a revisão por pares possui dimensão formativa frequentemente subestimada. Revisar manuscritos constitui uma das formas mais exigentes e eficazes de aprendizado científico em nível avançado. A prática obriga o pesquisador a confrontar desenhos de estudo concretos, decisões estatísticas reais e interpretações que extrapolam o que os dados efetivamente sustentam.3,4 Trata-se de exercício contínuo de auditoria intelectual.

Esse efeito formativo não se limita a pesquisadores em início de carreira. Ao contrário, tende a aprofundar-se com a experiência. Pesquisadores mais experientes passam a reconhecer camadas mais sutis de qualidade e de erro, identificando vieses menos evidentes, fragilidades inferenciais e problemas de transparência que escapam a leituras menos treinadas.3,4 A revisão por pares funciona, assim, como mecanismo permanente de atualização metodológica e de refinamento do julgamento científico.

Nos últimos anos, a atividade de revisão deixou de ser inteiramente invisível. Iniciativas que permitem o registro verificável das revisões realizadas, preservado o sigilo editorial quando necessário, contribuíram para tornar explícita a relevância dessa atividade no ecossistema científico.5 Embora o reconhecimento formal não deva constituir a principal motivação para revisar, sua existência ajuda a reposicionar a revisão por pares como trabalho científico qualificado, e não como tarefa acessória.5

É nesse contexto que a Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil (RBSMI) afirma, de forma explícita, a centralidade da revisão por pares para a qualidade científica, a consistência metodológica e a credibilidade do periódico. A revisão por pares é compreendida como elemento estruturante do processo editorial. Como expressão concreta desse compromisso, a revista adotará, a partir de 2026, a designação sistemática de três revisores por manuscrito, ampliando a diversidade de perspectivas críticas e reduzindo a dependência de julgamentos individuais.

Paralelamente, a RBSMI vem ampliando seu corpo de revisores, com a incorporação de novos especialistas e o fortalecimento de áreas estratégicas, com o objetivo de assegurar avaliações mais consistentes e metodologicamente qualificadas. Nesse mesmo movimento, institui-se o reconhecimento público anual dos revisores que colaboram de forma continuada ao longo do ano editorial, com divulgação oficial de seus nomes no número final do ano.

A avaliação editorial sistemática da qualidade das revisões será adotada sob a condução dos editores associados. Esse acompanhamento permitirá identificar pareceres particularmente consistentes e úteis à tomada de decisão editorial. A partir desse processo, será estabelecida política anual de reconhecimento dos revisores que se destacarem ao longo do ano, com regulamento público disponível na página institucional da revista.

Como parte desse mesmo esforço, a RBSMI está implementando mecanismos de priorização editorial para revisores com histórico consistente de colaboração, incluindo avaliação acelerada de manuscritos por eles submetidos, conduzida diretamente pela editoria-chefe e pelos editores executivos. Trata-se de reconhecimento proporcional à contribuição efetiva desses profissionais para o funcionamento do periódico.

Adicionalmente, a RBSMI instituiu, em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Saúde Integral do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), um programa estruturado de formação de revisores científicos, oferecido como disciplina regular do doutorado e aberto a discentes de outros programas e a docentes interessados. O eixo central do programa consiste na elaboração de revisões por pares sob tutoria editorial estruturada, com acompanhamento direto de editores associados e da editoria-chefe.

A revisão por pares continuará sendo um processo humano, falível e passível de aprimoramento. Justamente por isso, investir em sua qualificação, explicitar responsabilidades e fortalecer a formação de revisores não é opcional. Trata-se de condição necessária para preservar a integridade, a utilidade social e a credibilidade da ciência biomédica.1,2,5

Não há periódico científico sólido sem revisores qualificados, formados e reconhecidos. Investir na formação e na valorização do revisor representa investimento direto na qualidade da ciência publicada e na credibilidade institucional da revista.

Referências

1. Smith R. Peer review: a flawed process at the heart of science and journals. J R Soc Med. 2006; 99 (4): 178-82.

2. Jefferson T, Wager E, Davidoff F. Measuring the quality of editorial peer review. JAMA. 2002; 287 (21): 2786-90.

3. Schroter S, Black N, Evans S, Carpenter J, Godlee F, Smith R. Effects of training on quality of peer review: randomised controlled trial. BMJ. 2004; 328: 673.

4. Bruce R, Chauvin A, Trinquart L, Ravaud P, Boutron I. Impact of interventions to improve the quality of peer review of biomedical journals: a systematic review and meta-analysis. BMC Med. 2016; 14: 85.

5. Committee on Publication Ethics (COPE). Ethical guidelines for peer reviewers. [acesso em 2026 Jan 20]. Disponível em: https://publicationethics.org/guidance/guideline/ethical-guidelines-peer-reviewers.

Recebido em 29 de Janeiro de 2026
Aprovado em 30 de Janeiro de 2026

Editora Chefe: Melania Amorim

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