ObituárioJosé Eulálio Cabral Filho (Professor Eulálio)
(28/03/1937 † 05/01/2026)No dia 5 de janeiro de 2026, a comunidade acadêmica brasileira despediu-se de José Eulálio Cabral Filho, intelectual raro, professor de exceção e presença formadora na história recente da pós-graduação em saúde no país. Sua trajetória distinguiu-se pela confluência pouco comum entre ciência rigorosa, reflexão filosófica profunda e uma humanidade que se fazia notar no trato cotidiano.
Médico formado pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 1966, filósofo pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) em 1970, mestre em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP) em 1973 e doutor em Farmacologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) em 1987, realizou pós-doutorado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. Essa formação plural deu sustentação a uma carreira acadêmica sólida, multifacetada e intelectualmente coerente.
No Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), foi professor titular, docente permanente e vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Saúde Integral, nos níveis de mestrado e doutorado stricto sensu. Exerceu papel central na estruturação do programa, sendo responsável por disciplinas nucleares, como Epistemologia e Filosofia das Ciências da Saúde, que marcaram gerações de alunos pela densidade conceitual e pelo rigor intelectual.
Atuou também como consultor, conselheiro e integrante de diversas comissões científicas, sobretudo na Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (FACEPE) e no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Nessas instâncias, tornou-se referência na articulação entre metodologia científica e fundamentos filosóficos, deixando marca duradoura tanto na avaliação de projetos quanto na formação de docentes, mestres e doutores.
Sua contribuição à Universidade Federal de Pernambuco merece destaque especial. Como Professor Adjunto do Departamento de Nutrição do Centro de Ciências da Saúde, desenvolveu pesquisas e atividades docentes nas áreas de bioestatística, fisiologia, nutrição, sistema nervoso e nutrição e comportamento, ampliando o diálogo entre campos do conhecimento tradicionalmente compartimentados.
Ao longo de sua trajetória intelectual, manteve estreita interlocução com o Prof. Aluízio Bezerra Coutinho, notável médico, professor e cientista pernambucano. Dedicou-se à organização, sistematização e republicação de seus escritos, contribuindo decisivamente para preservar e projetar sua obra no cenário científico nacional. Nesse contexto, destaca-se o livro
A Natureza da Vida,
1 no qual se reafirma o diálogo entre biologia, filosofia e humanismo científico — eixo que atravessou, de forma consistente, toda a produção intelectual de José Eulálio.
Como pesquisador, coordenou programas relevantes, com destaque para as investigações sobre atividade motora e desenvolvimento de crianças pré-termo assistidas pelo Método Mãe Canguru, sempre atento à interface entre biologia, desenvolvimento humano e contexto social. Sua produção científica e sua atuação como orientador formaram gerações de pesquisadores, muitos dos quais hoje ocupam posições de liderança acadêmica.
No campo editorial, sua contribuição foi decisiva. À frente da
Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil entre 2001 e 2022, inicialmente como Editor Executivo e, posteriormente, como Editor-Chefe, conduziu a consolidação do periódico na base de dados do
Scientific Electronic Library Online (SciELO), fortalecendo padrões de qualidade metodológica, ética editorial e consistência científica. Sua atuação foi parte fundamental do amadurecimento institucional da revista e do fortalecimento da produção científica em saúde materno-infantil no Brasil. Sob sua influência, o Programa de Pós-Graduação em Saúde Integral do IMIP alcançou patamar de excelência, culminando na nota 6 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).
Ao longo de sua carreira, publicou mais de 70 artigos científicos em periódicos nacionais e internacionais, organizou livros, foi autor de diversos capítulos, participou de inúmeras bancas de mestrado e doutorado e orientou alunos em diferentes níveis de formação, da iniciação científica ao doutorado, contribuindo de modo decisivo para a pesquisa brasileira e para a formação de recursos humanos qualificados.
Entretanto, a estatura intelectual de José Eulálio não se explicava apenas por títulos ou cargos. Como não poderia deixar de ser, um professor com tantas virtudes foi também profundamente humano em suas imperfeições, discreto em seus gestos e avesso a qualquer forma de vaidade acadêmica. Colega generoso, de trato simples e cordial, professor de filosofia de escuta atenta e intervenções precisas, orientador empático e sempre disponível, era reconhecido por uma combinação rara de doçura, leve timidez e agudeza intelectual. Suas observações, muitas vezes breves e aparentemente despretensiosas, surgiam em conversas que ficaram conhecidas como “café filosófico” — encontros que, segundo ele próprio, deveriam ser saboreados com um bom chocolate. Nesses momentos, era capaz de deslocar certezas, suspender respostas fáceis e recolocar perguntas no centro do debate. Ensinava sem dogmatismo, provocava sem aspereza e orientava com profundo respeito à autonomia intelectual de alunos e colegas, oferecendo não apenas conteúdos, mas um modo ético de pensar, dialogar e habitar o espaço acadêmico.
Na esfera familiar, José Eulálio foi um avô, pai e esposo profundamente presente e dedicado, exercendo esses papéis com o mesmo cuidado, discrição e sentido ético que marcavam sua vida acadêmica. Para a família, foi referência de afeto sereno, escuta atenta e convivência generosa, deixando um legado de valores que transcende a obra intelectual. Suas memórias permanecerão guardadas com carinho e gratidão no coração de seus familiares, como expressão de uma vida vivida com inteireza, coerência e humanidade.
Com sua partida, permanece um legado que ultrapassa a produção acadêmica: a convicção de que ciência e filosofia não são campos opostos, mas dimensões complementares de um mesmo esforço humano por compreender o mundo e agir com responsabilidade; a simplicidade no trato com pares e orientandos; e o carinho pelos familiares e amigos. Permanecem suas ideias, sua ética do pensar e sua presença formadora, inscritas na história do IMIP, da
Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil e na memória viva de todos que com ele conviveram.
Cordel Para o Professor Eulálio
No barro quente do Nordeste
pensou o mundo com razão,
fez da dúvida uma estrada,
do saber, interrogação.
Agora filosofa o infinito,
guiando sempre à reflexão.
(Melania Amorim)
Referências1. Coutinho AB (Org.); Cabral-Filho JE (Org.). Da Natureza da Vida. 2ª. ed. Recife: Gráfica e Editora Liceu; 2016. 128p.