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Qualis Capes Quadriênio 2017-2020 - B1 em medicina I, II e III, saúde coletiva
Versão on-line ISSN: 1806-9804
Versão impressa ISSN: 1519-3829

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Acesso aberto Revisado por pares
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Online no puerpério: interações de um grupo de apoio virtual

Renatha Celiana da Silva Brito1; José Jailson de Almeida Junior2; Anna Cecília Queiroz de Medeiros3

DOI: 10.1590/1806-9304202200030014

RESUMO

OBJETIVOS: por sua acessibilidade, os grupos de suporte online vem sendo utilizados como alternativa na constituição da rede de apoio às mulheres no puerpério. Assim, dado o relativo pouco tempo de utilização deste recurso, o presente trabalho buscou apresentar uma visão geral das interações de um grupo virtual de puérperas.
MÉTODOS: estudo de caráter qualitativo e exploratório que analisou as interações de um grupo virtual composto por 9 mulheres gestantes, predominantemente durante o puerpério, usuárias dos serviços básicos de saúde do Município de Currais Novos/RN, durante o período de janeiro a junho de 2020. O corpus, devidamente previamente preparado, foi submetido a Análise da Classificação Hierárquica Descendente (ACHD) via software IRAMUTEQ, seguida de análise de conteúdo, de acordo com Bardin.
RESULTADOS: a ACHD resultou em convergência em torno de três temas, sendo a classe 1 – “Itinerários do Puerpério”, que representou 56,1% das unidades de contexto elementar (UCE) do corpus total, o objeto de interesse do presente estudo. As principais dimensões extraídas desta classe trataram de dificuldades inerentes ao cotidiano e demandas de apoio e cuidados durante o puerpério, bem como as limitações inerentes a este momento.
CONCLUSÃO: percebeu-se que grupos virtuais podem atuar fortalecendo a rede de apoio necessária ao enfrentamento das dificuldades do puerpério a partir da troca de experiências.

Palavras-chave: Puerpério, Apoio social, Suporte social online

ABSTRACT

OBJECTIVES: due to the accessibility, online support groups have been used as an alternative in the constitution of a support network for women in the puerperium period. Thus, this resource is given relatively a short time of use, the present work sought to present an overview of the virtual group of puerperal women's interactions.
METHODS: qualitative and exploratory study that analyzed a virtual group composed of 9 pregnant women's interactions, predominantly during the puerperium period, users of basic health services in the city of Currais Novos/RN, during the period of January to June 2020. The corpus, duly previously prepared, was submitted to Análise da Classificação Hierárquica Descendente (ACHD) (Analysis of Descending Hierarchical Classification) via IRAMUTEQ software, followed by content analysis, according to Bardin.
RESULTS: the ACHD resulted in convergence around three themes, with class 1 - "Puerperium Itinerary", which represented 56.1% of the elementary context units (ECUs) of the total corpus, being the object of interest in the present study. The main dimensions extracted from this class dealt with difficulties inherent to daily life and demands for support and care during the puerperium period, as well as the limitations inherent to this moment.
CONCLUSIONS: it was noticed that virtual groups can strengthen the support network necessities to face the difficulties of the puerperium by exchanging experiences.

Keywords: Puerperal, Social support, Online social support

Introdução

O puerpério é caracterizado como uma fase de transição na vida da mulher, que a torna vulnerável diante da presença de inúmeros desafios físicos e biopsicossociais, como alterações corporais, hormonais, preocupações e inseguranças.1 Neste momento, uma rede de apoio bem estruturada pode ser decisiva para lidar melhor com as dificuldades deste período, auxiliando na redução de transtornos mentais nestas mulheres e na melhora do estado de saúde.2

Rede de apoio ou apoio social pode ser definido como um suporte do ambiente social, representando um importante aspecto de troca entre o mundo social e o indivíduo, envolvendo dimensões de conforto, assistência e informações recebidas por contatos sociais formais ou informais,3 fundamentais ao longo da vida da mulher, principalmente em períodos de transições e mudanças, como o nascimento de um filho.4

Grupos focais realizados com mães recentes, visando analisar as experiências, percepções, pensamentos, desejos, desafios ou problemas desse estágio de vida, evidenciaram a importância de redes ou estruturas que as aproximem, viabilizando o compartilhamento de vivências e a possibilidade de aprenderem umas com as outras.1

Nessa perspectiva, os suportes online, ou apoio social virtual, podem ser procurados como uma alternativa aos grupos de apoio tradicionais, presenciais, por serem mais acessíveis.5 Tais grupos online geralmente têm um modus operandi que privilegia a interação entre usuários e a aprendizagem colaborativa.6 Souza et al.7 analisaram 259 usuários de redes sociais e verificaram que 177 deles faziam uso do WhatsApp, dos quais 112 eram mulheres (87%) e afirmaram que esta mídia social é uma das melhores formas deinteração.

Por exemplo, os sites frequentados por mulheres grávidas e puérperas geralmente têm características de uma comunidade online comum, na qual seus membros interagem voluntariamente em resposta a um interesse ou necessidade compartilhada.8 Embora os indícios apontem que este tipo de estratégia apresenta um potencial para trazer um impacto positivo para o estado de saúde de puérperas,9 existem relativamente poucas pesquisas sobre este assunto, em particular no cenário brasileiro.

Considerando o potencial do universo virtual na construção do apoio social e no compartilhamento de experiências da maternidade, buscou-se, a partir de inquietações sobre a temática, compreender melhor como se dão essas interações no contexto particular de usuárias da Atenção Primária à Saúde (APS). Assim, esse estudo tem o objetivo de apresentar uma visão geral das características e interações de um grupo virtual de mães acompanhadas na APS.


Métodos

Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, exploratória, de um grupo virtual de WhatsApp, composto por mulheres com idade entre 18 e 35 anos,10 usuárias dos serviços básicos de saúde de diferentes Estratégias Saúde da Família (ESF) do Município de Currais Novos, Rio Grande do Norte, Brasil. O município de Currais Novos está localizado no interior do Rio Grande do Norte e tem uma população atual estimada de 44.905 mil habitantes.11 O município conta com 18 Unidades Básicas de Saúde (UBS), sendo 15 na zona urbana e 3 na zona rural.As participantes foram selecionadas a partir de levantamento sobre o perfil dos atendimentos junto aos profissionais de saúde das equipes da atenção básica do referido município.

Para a constituição do grupo partiu-se da premissa de que este deveria ser composto por mulheres que não se conhecessem previamente, mas que tivessem contextos de vida parecidos, de forma a aumentar as chances de sucesso da interação virtual. A busca ativa e o convite para participar da pesquisa aconteceu de forma presencial junto às UBS (enquanto as, até então gestantes, realizavam as consultas de pré-natal), da mesma forma que a aplicação deum questionário estruturado para verificar se eram atendidos os seguintes critérios de inclusão: realizar o pré-natal na rede de atenção básica da zona urbana e estar com as consultas em dia no cartão da gestante (pelo menos uma consulta no primeiro trimestre e duas no segundo trimestre); ter gestação considerada como de risco habitual; ser alfabetizada; ser casada ou estar em uma união estável; ter acesso a internet através de um aparelho celular; estar no terceiro trimestre da gestação; e não ter participado previamente de grupos de convivência para gestantes na unidade de saúde ou em centros de referência; não ter histórico de diagnóstico de depressão e uso de psicotrópicos; e não serem identificadas com transtornos mentais comuns (TMC), como ansiedade e depressão, a partir da aplicação do instrumento de rastreio Self-Report Questionnaire-20 (SRQ-20).12,13 As mulheres identificadas com TMC foram encaminhadas para atendimento psicológico na rede de saúde do município.

Conforme Vaugh et al.,14 visando uma otimização e aprofundamento na dinâmica das participantes, procuramos seguir a orientação de 6 a 15 participantes por grupo. Inicialmente foram alcançadas cerca de 32 mulheres, porém, segundo os critérios de inclusão citados acima, apenas 10 puderam ser consideradas para participar desta pesquisa. O grupo em si iniciou com 10 usuárias, mas após a primeira semana uma delas desistiu da participação e saiu do grupo, restando apenas 9, participando e interagindo, até o final do estudo.

O grupo virtual foi intitulado de “Papo de Mãe” e foi constituído por mulheres gestantes (a partir da 35ª semana gestacional) e, posteriormente, puérperas, com idade média de 27 anos. As participantes do grupo receberam a orientação prévia de que estariamlivres para navegar e interagir sem previsão de conteúdos e sem prazo estipulado de tempo diário para interação. A pesquisadora (integrante do grupo) iniciou a conversação com as “boas-vindas”, reforçando a liberdade das participantes sobre os conteúdos e, visando facilitar a interação entre elas, durante a primeira semana postou algumas imagens contendo frases sobre o puerpério. Durante as semanas que sucederam, a pesquisadora esteve presente no grupo apenascomo observadora, sem nenhuma interferência ou interação.

As interações entre as participantes aconteceram de modo semelhante a um grupo comum de WhatsApp, ou seja, a partir de áudios, vídeos, imagens e conversas de forma geral referente as suas vivências diárias.As conversações e postagens ocorriam em bases diárias, embora de forma irregular, aumentando bastante em volume a depender do tema e, de modo geral, ocorriam mais fortemente no horário da noite. As interações avaliadas no presente trabalho transcorreram entre 13 de janeiro a 06 de junho de 2020, sendo identificada uma predominância de postagens sob a forma de imagens e áudios, devidamente transcritos/descritos.

Assim, após esse período de 5 meses, realizou-se o download e a leitura flutuante do material que deu origem ao corpus, posteriormente preparado para análise: codificação das participantes, revisão e correção quanto a língua portuguesa, uniformização de siglas e/ou junção de palavras compostas, como por exemplo, o termo “unidade_básica_de_saúde” e transcrição de áudios, imagens e vídeos.

Em seguida, o corpus textual foi submetido à Análise da Classificação Hierárquica Descendente (ACHD) do software IRAMUTEQ, indicado para grandes volumes de dados, que permite a análise de raízes lexicais e mostra os contextos em que as classes estão inseridas.15 Posteriormente, as interaçõesforam submetidas a análise de conteúdo de acordo com Bardin,16 que considera o conjunto de características em um determinado fragmento do conteúdo. A partir dos resultados da ACHD foram realizadas as etapas de exploração do material (adaptada) e de tratamento/interpretação dos resultados obtidos. Dessa maneira, o corpus foi organizado em dimensões, e cada uma delas agrupou suas respectivas interações e contextualizações.

Este estudo seguiu todos os aspectos éticos conforme a Resolução nº 466/2012 do Conselho Nacional de Saúde,17 previamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, de acordo com o protocolo CAAE de nº: 20150819.8.0000.5568 e com atividades iniciadas no ano de 2019. Todas as mulheres participaram mediante a assinatura em duas vias impressas do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).


Resultados

A ACHD mostrou uma convergência de características em torno de três temas, sendo a Classe 1 – “Itinerários do Puerpério”, que representou 56,1% das unidades de contexto elementar (UCE) do corpus total, o objeto de interesse do presente estudo. As dimensões identificadas e descritas a partir da Classe 1, pela análise de conteúdo, são apresentadas na Figura 1.


 



As últimas semanas gestacionais (início do período de coleta) foram marcadas, especialmente, pela retrospectiva sobre a descoberta e vivência da gestação (principalmente aquelas que não haviam sido planejadas, sete de um total de nove gestantes) e pelos sentimentos de ansiedade para o nascimento do bebê. A dimensão “dormir” foi a mais frequente na classe ora analisada.

As mulheres utilizam suas próprias experiências sobre a maternidade na intenção de ajudar outras mulheres, de modo a criar uma rede de apoio (social e emocional), especialmente para as primíparas, proporcionando informação, incentivo e empatia. A Tabela 1 mostra algumas interações entre as mulheres durante a coleta.


 



Discussão

O objetivo principal deste trabalho foi apresentar uma visão geral das interações de um grupo virtual de mães acompanhadas na atenção primária em saúde (APS). Muitas vezes a maternidade é vista como uma fase de conto de fadas, em que toda mulher nasce para ser mãe com vocação para tal, o que não necessariamente é verdade. A mulher não nasce mãe, ela torna-se mãe ao longo do processo, processo esse que, além de alegrias, envolve muitos desafios, sofrimento, inseguranças, medos, dores e dificuldades (desde o momento de sua descoberta).18 Esta foi a realidade encontrada na avaliação do material produzido a partir das interações das participantes do grupo.

Palmén e Kouri19 observaram em seu estudo com sete mães de bebês, com média de 26,9 anos de idade, que os serviços da internet mais apreciados foram aqueles de mídia social que permitem que elas se conheçam e formem um grupo fechado no qual a amizade se torna possível, dessa forma podem compartilhar experiências relacionadas à rotina diária, inclusive relacionados à saúde e bem-estar. A partir do aumento da conectividade e vínculo entre as mães, o apoio virtual pode contribuir para a diminuição do risco para depressão e melhora da qualidade de vida, uma vez que é capaz de influenciar nos níveis de estresse provenientes deste período.20

Nessa perspectiva, um fator que foi bastante discutido pelas mães, enquanto um elemento estressor, foi a questão do sono. Adimensão “Dormir” agrupou o maior número de UCE na classe ora analisada. Com o nascimento do bebê, o sono tende a sofrer modificações devido às novas atividades e à rotina de sono da criança que, consequentemente, determina a rotina da mãe. Coutinho et al. 21 consideram o sono e o estado de repouso como uma das necessidades básicas mais fortemente influenciadas pela gestação e puerpério.

Conforme relatado pelas participantes, as flutuações do sono decorrentes deste momento fisiológico acabam impactando negativamente no rendimento/disposição para a realização das atividades de vida diária, o que foi o foco principal da dimensão “Atividades Domésticas”. Segundo as mães, o acúmulo dessas atividades é agravado especialmente por não haver o suporte de terceiros para a realização destas tarefas (na maioria dos casos relatados), resultando no aumento dodesgaste físico e emocional inerente ao período puerperal, o que permeia amplamente as interações na dimensão “Sentir/Querer”.

As estratégias de apoio devem proporcionar as mulheres, além da fragilidade da figura de ser mãe, o entendimento da sua inserção em um contexto social, histórico e cultural, compreendendo o aleitamento como uma fase de ressignificação de sua feminilidade.22 Segundo Wennberg et al.23 esse compartilhamento de vivências sobre o aleitamento materno em grupos proporciona, além do sentimento de segurança frente às dificuldades encontradas, uma identificação e compreensão do processo, fortalecendo, principalmente, a autoconfiança na capacidade de amamentar.

O apoio paterno, por exemplo,que foi várias vezes referido nas interações entre as participantes (incluídas na dimensão “Apoio”), além da provisão material, é compreendido como fundamental pela influência emocional, participação na realização das atividades domésticas, planejamento familiar e desenvolvimento de um puerpério saudável, de forma geral, podendo, também, influenciar positivamente no êxito da amamentação e na diminuição dos riscos de depressão pós-parto.24

Um pai envolvido na gestação e puerpério é capaz de encorajar a mulher e tranquilizá-la com relação as transformações de seu corpo e cotidiano, pois, embora a gestação e o parto sejam atividades desempenhadas exclusivamente pelas mulheres, os homens também são afetados pela chegada do bebê.25 No entanto, parece persistente a ideia de que a participação do pai nos cuidados da casa e do bebê é considerada como uma “ajuda”, sendo a mãe a “titular” dessas atividades.21-24

O processo de amamentação, de fato, envolve aspectos físicos, psicológicos e emocionais, sendo natural que haja desafios que despertem a insegurança da mãe,22 conforme identificado na dimensão “Aleitamento”. Algumas das integrantes do “Papo de Mãe” enfrentaram dificuldades no êxito do tão sonhado Aleitamento Materno Exclusivo (AME), cercando esta experiência de angústias, desencadeadas principalmente pela sobrecarga diária que, de alguma forma, interferiam na produção do leite. Foram muitas as interações voltadas ao intercâmbio de experiências sobre aleitamento materno, que refletem a realidade por trás da visão romantizada em torno da amamentação, que não considera as possíveis limitações e dificuldades desse processo, podendo levar a mulher a se sentir culpada e falha enquanto mãe.

Um desafio enfrentado por algumas puérperas, que foi tema de muitas interações, foi a necessidade de ofertar precocemente a fórmula alimentar antes dos seis meses (idade recomendada pelo Ministério da Saúde26 para AME), motivada por diferentes fatores que acabam interferindo na decisão e duração do aleitamento materno, que pode ser influenciada de maneira positiva ou negativa a partir das formas de enfrentamento e da rede de apoio recebida.

Nesse sentido, a rede de apoio e a prática de educação em saúde que essas mulheres recebem podem influenciar diretamente no enfrentamento deste problema, prevenindo uma descontinuidade da amamentação.23 É necessário fortalecer o apoio ao aleitamento, especialmente por parte da APS, visto que, tanto na gestação quanto no pós-parto imediato, existem muitas dúvidas, anseios e inquietações que, por falta de acolhimento nos serviços de saúde, acabam deixando a mulher à mercê de orientações que podem levar ao abreviamento do AME.

Considerando que todas estas mães realizaram acompanhamento pré-natal na APS, bem como o acompanhamento puerperal, esses relatos fomentam reflexões sobre a necessidade de implementar novas estratégias para conseguir dar um suporte específico e continuado nas questões referentes ao aleitamento e a amamentação. Cabral et al.,22 ao avaliarem o suporte virtual para rede de apoio ao aleitamento materno com 11 mulheres, destacaram que este cenário torna-se uma companhia para as mulheres, especialmente no período da amamentação e pós-parto imediato.

O apoio social, especialmente familiar, reflete diretamente no enfrentamento das dificuldades gravídicas e puerperais, negativa ou positivamente. Por uma perspectiva romantizada, o principal papel da família é oferecer uma rede de proteção, afeto e companheirismo, principalmente no compartilhamento das atividades diárias da rotina.25

No entanto, relações enfraquecidas estão comumente associadas com risco elevado para doenças psicológicas, como depressão pós-parto, podendo refletir em aspectos fisiológicos, como a diminuição da produção do leite materno, devido ao estresse, cansaço e tristeza envolvidos.27 Nesse sentido, tendo em vista que os companheiros e familiares precisam dar continuidade as rotinas de trabalho e estas mulheres ficam por longos períodos de tempo sozinhas com seus bebês, ampliam-se as relações e aproximações de pessoas que possuem vivências similares, corroborando com a realidade encontrada no presente estudo.

O uso das tecnologias vem demonstrando uma grande eficácia quando se trata da abrangência nos serviços de saúde, sendo, inclusive, recomendada para aumentar o alcance das ofertas de serviços relacionados aos cuidados integrais à saúde, por exemplo, no uso do teleatendimento,28 tendo em vista a possibilidade de criar laços virtuais, que estreitam o vínculos entre serviço e usuária, aumentando, portanto, as chances de longitudinalidade do cuidado.29 Os sujeitos que compõem as redes sociais assumem posições de apoio a alguma necessidade ou dificuldade enfrentada, podendo, portanto, o WhatsApp ser reconhecido como uma rede de apoio social, onde os vínculos despertam os sentimentos de amizade, confiança e solidariedade entre os participantes.8-27,28

As políticas públicas de saúde brasileiras estabelecem diretrizes e orientam as ESF sobre ações para a atenção puerperal voltadas, especialmente, a cuidados primários, visualizando que este seja o nível de atenção fundamental para a atenção integral à saúde da mulher e da criança.30 No entanto, há evidências de que o cuidado pós-parto na APS necessita de melhorias relacionadas à estrutura física e de recursos humanos e de materiais, fortalecendo a qualificação profissional, a humanização e o cuidado centrado na mulher, superando, portanto, a atenção tecnicista,25-29 referentes a dimensão “Dizer/Orientar”.

O presente estudo apresentou uma visão singular sobre temas e discussões de interesse de mães durante o final da gestação e ao longo dos primeiros quatro meses do bebê. Especificamente foi possível perceber como o apoio social impacta de forma positiva o enfrentamento das dificuldades e desafios em decorrência do puerpério, mesmo que as vivências sejam únicas para cada mulher. Este apoio pode ser percebido na troca de conhecimento que houve entre as participantes sobre diferentes assuntos, como por exemplo, sobreos melhores custos-benefícios na escolhade fraldas, como escolher um bom pediatra, questões conjugais, experiências com medicamentos e terapias alternativas de conhecimento popular (como a utilização de chás e ervas aromáticas).

De fato, as participantes estabeleceram uma relação de confidentes, aconselhando umas às outras em assuntos difíceis e desafiadores, como dificuldades financeiras e o cansaço causado pela maternidade, partilhando diariamente suas vivências no grupo virtual, o que seria inviável de ocorrer de outra forma, dada a distância geográfica entre elas.

Finalmente, foi possível perceber que o grupo “Papo de Mãe” configurou-se como um espaço de troca, vivo e interativo, auxiliando suas participantes na jornada da maternidade, fomentando segurança e protagonismo. Positivamente, estes grupos criam um vínculo entre pessoas com vivências, dúvidas e desafios parecidos, independente de seus contextos sociais e fronteiras geográficas.7-29 Outrossim, considera-se que mais estudos são necessários para explorar esse tipo de experiência, criando e sistematizando parâmetros e estratégias para o melhor aproveitamento deste tipo de ferramenta dentro do repertório da atenção primária à saúde.


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Recebido em 5 de Julho de 2021
Versão final apresentada em 2 de Maio de 2022
Aprovado em 8 de Junho de 2022


Agradecimentos
Agradecemos a Secretaria Municipal de Saúde de Currais Novos, bem como aos profissionais e usuárias das Unidades Básicas de Saúde (UBS) pela disponibilidade e contribuição para realização desta pesquisa.

Contribuição dos autores
Brito RCS: concepção da ideia, coleta e análise de dados, redação e revisão do manuscrito. Queiroz de Medeiros AC: concepção da ideia, redação e revisão do manuscrito. Almeida Junior JJ: análise de dados, redação e revisão do manuscrito. Todos os autores aprovaram a versão final do artigo e declaram não haver conflito de interesse.

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